Friday, 3 December 2010

W(h)ine

Agitou o copo como quem entende. Cheirou um pouco, sentiu o aroma forte e doce. Olhou para o líquido vermelho escuro e deu um trago. Nem sentiu o sabor, mas prontamente acenou ao empregado que assistia expectante à cena para que enchesse o copo. Ela continuava naquilo. A falar. Não, não era bem falar. Era um depositar de queixas, um rol de histórias e situações. Uma lista de tudo o que ele tinha feito de errado. De todas as suas falhas. Teria assim tantas? Ela não se calava nunca mais. Mas ele não estava a ouvir. De certeza que ela já mencionou a minha tendência para a ignorar, pensou ele. Não se conseguia decidir sobre o que estava a sentir. Decepção? Tristeza? Frustação? Fúria? Alívio? Talvez um pouco de tudo isto, e no entando nada. Nada. Porque é que ele no fundo, não sentia nada? Porque é que ele não se esforçava para a ouvir, para perceber o que tinha feito de errado, para aprender e tentar melhorar, para que na próxima vez que esta mesma conversa tivesse lugar ela não se queixasse tanto? Talvez a culpa não tenha sido minha, pensou. Sim, é isso. A culpa é dela. Foi ela que me perdeu, que não me soube agarrar. Que me encantou e depois me deixou ali, naquele limbo, sem mudar nada. Ou melhor, a mudar tudo. O entusiasmo e a curiosidade dos primeiros dias depressa desapareceram. Não havia nada de novo a descobrir ali, nada que valesse a pensa explorar. E ele era um explorador. Gostava de desbravar novos territórios e o prazer da descoberta era o que lhe dava ânimo para seguir em frente. Quando se levantou sem dizer uma palavra nem olhou para ela. Ouviu-a chamar o seu nome enquanto deixava algum dinheiro para pagar o jantar em cima do prato onde ainda nem sequer tinham chegado as entradas. Mas deixou de a ouvir quando abriu a porta do restaurante e saiu. E de repente, tudo ficou mais silencioso. O mundo era agora o que ele tinha para descobrir. E ele sorriu, por fim.

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